domingo, 11 de dezembro de 2011

Entrevista com o jornalista, musico e escritor Ayrton Mugnaini

Oferecemos aos nossos internautas entrevista exclusiva com Ayrton Mugnaini Jr., jornalista, compositor, escritor, tradutor, pesquisador de música popular, blogueiro e desconfiamos também banqueiro enrustido nas horas vagas aonde sabiamente pratica o habito esportivo de contar milhares de notas de 100 dolares, dai seu fisico atlético torneado equilibrando milimetricamente com seu cérebro enciclopédico de fazer inveja a qualquer Barsa. Brincadeiras à parte Ayrton já se insere com certeza entre os brasileiros que fazem a diferença, produzindo, pesquisando e fazendo cultura brasileira ,apesar de pouco e difícil incentivo para quem teima em militar nessa área aonde quase sempre ganha a imposição do que o sistema acha que você deve ouvir, ler ou assistir. Mas isso já é outra história.E pode estar mudando com a internet.

1- Ayrton... eu costumava dizer 15 anos atrás que vc era multimidia antes desta palavra ser usada, vc fazia (e faz) um monte de coisas : compor, tocar, escrever, pesquisar, traduzir, radialista, blogueiro, artista, humorista, etc, etc e as vezes ainda vende discos e livros em feirinhas para colecionadores – dessas coisas o que vc faz com mais paixão, apesar de não conseguir por temperamento fazer uma coisa só?
Com todo o respeito, abomino o anglicismo “multimídia”, prefiro dizer que sou multimeios (ri). Todas estas atividades têm a ver com duas coisas: música e texto. E sempre digo que as cosias que mais gosto de fazer são ouvir música, compor música, tocar música, ler sobre música, escrever sobre música e fazer alguma coisa aprazível enquanto ouço música. Mas gosto também de elaborar textos e traduções e fazer trocadilhos e piadinhas “cabeça”.
2- Qual seu maior sucesso como compositor?
Depende do que tu consideras sucesso. Concordo com a frase de Jackson do Pandeiro: “Eu fiz muito sucesso, sucesso que eu digo não é tocar muito no rádio, e sim todo mundo conhecer tua obra”. Por esse parâmetro, acho que meus maiores sucessos como compositor são “Eu Amo Esse Homem” (parceria com Wilson Rocha e Silva), “Acalanto” (idem),“Maneta” e “Conformática”, canções que muita gente canta espontaneamente em festas e shows, sem necessidade de empurrão ou jabá de grande gravadora ou emissora de televisão.
3- Quando pergunto que estilo de musica vc gosta você me diz “ Gosto de música!” Mas todo mundo gosta mais de um estilo do que de outros. Que tipo de música vc ouve mais? Poderia citar alguns artistas que curte?
Eu sempre digo que coleciono música, e não discos, e estou com Bezerra da Silva, famoso como sambista, mas quando o entrevistei ele me disse que gostava de tocar canções dos Beatles no piano, procurando as melodias com um dedo dó, e me resumiu: “Música é dó, ré, mi fá, sol, lá, si, o resto é detalhe”. Pessoalmente, sou contra sectarismos e monocultura, roqueiro ouvir só rock, sambista ouvir só samba e assim por diante, sem ouvir outros ritmos e gêneros para ver se gosta ou não. Eu gosto de junções “nada a ver” que no fim têm tudo a ver. Atualmente sou produtor independente na USP FM, com o programa Rádio Matraca, e a emissora já tem um clima propício, outro dia ouvi na programação normal um frevo de Moraes Moreira seguido de “Killing me Softly” com Roberta Flack, mais recentemente ticaram “O Namorado Da Viúva” de Jorge Ben Jor e em seguida “Stand By Me” com John Lennon, achei maravilhoso. E no Rádio Matraca procuramos recriar o ecletismo e democracia do rádio nos anos 1950 a 1970, quando num mesmo dia se ouvia Waldick Soriano, Black Sabbath, Chico Buarque, “Farofa-Fá”, “Juanita Banana”, bastou fazer sucesso que tocava, e todos os gostos eram atendidos. Pessoalmente, o que eu mais gosto de ouvir é samba em geral, rock com melodia e, antes de dormir, música renascentista e pop pré-rock, dos anos 1890 a 1950. Alguns artistas que ouço muito Chico Buarque, Mutantes, os Kinks, Paul McCartney solo – há quem o chame de “medíocre”, opinião que respeito, mas quisera eu ser medíocre assim – , Adoniran, Gershwin e gente mais nova como Karina Buhr e Socorro Lira. Por sinal, para quem vive reclamando de que música brasileira nova não presta ou nem existe, recomendo dar uma procurada no Clube Caiubi de Compositores, a maior rede virtual de compositores do Brasil, sou integrante desde a fundação em 2002, já são cerca de sete mil sócios com filiais pelo mundo afora.
4- Quando que apareceu aquele toque de que seu negócio era mexer com cultura?
Logo que nasci (ri). Tentei cursar Engenharia Elétrica achando que era necessário para ser engenheiro de gravações de som, mas desde antes mexi com cultura, fazendo jornaizinhos e fanzines desde os dez anos de idade, a princípio um único exemplar manuscrito, daí mimeógrafo a álcool, daí mimeógrafo a tinta, daí Xerox, daí offset, e quando percebi estava diplomado em jornalismo e escrevendo em publicações de diversos portes, até virtuais, posso até dizer que escrevi na primeira publicação virtual brasileira sobre música, a Brazilian Music Uptodate, foi uma aventura divertida, pelo que sei a revista continua no ar, embora com menos atualizações do que merece.
5- Qual o primeiro disco que vc comprou?
Os primeiros que comprei entrando numa loja sozinho foram três compactos, “Eu Amo Tanto Tanto” com Moacyr Franco, “A Chi” com Fausto Leali e “Ob-La-Di, Ob-La-Da” dos Beatles. Foi no começo de agosto de 1970, logo antes de eu completar 13 anos, eu já morava em Sorocaba, onde morei de 1969 a 1979. Eu queria “Ob-La-Di, Ob-La-Da” com quem quer que fosse, eu conhecia com a banda Marmalade, e a primeira gravação que achei à venda em compacto foi a dos Beatles, “ah, pode ser essa mesmo”.
6- em quais bandas vc já tocou e quais instrumentos?
Ah, desde 1971 eu sou o chamado “conjunteiro”, como uma pessoa que namora várias outras ao mesmo tempo e é fiel a todas (ri). Meus primeiros conjuntos ou grupos (ainda não se chamavam “bandas”) foram em Sorocaba, as primeiras “bandas” não passaram de reuniões caseiras, ensaios mais ou menos para valer só a partir de 1974, meu primeiro ensaio com contrabaixo elétrico foi em 1977, antes era só guitarras, violões e bateria, os grupos eram The Paranoic Market Boys, Trânsito Maluco de Marte, Repolho Nervoso, Arrebalde, e ainda em Sorocaba produzi demos de um grupo de amigos, o Koyzahara, e enquanto isso, quando estudei em Lins, toquei com muita gente por lá, mal voltei a São Paulo já formei uma dupla com o Roberto Kirsinger, dono do sebo Grilo Falante, ele tocava guitarra e arranhava vioino, fizemos algumas gravações que ainda vou digitalizar, daí fui indo de banda em banda, toquei com Eddy Teddy na British Beat, daí no Verminose com Kid Vinil, daí entrei para o Língua de Trapo e montei o Galileu, primeiro grupo que liderei para valer... Depois voltei para o Língua como compositor, onde fiquei até quando o grupo parou em 1987, e voltei para o Verminose, já renomeado Magazine, gravamos o segundo CD do grupo... Outros grupos onde toquei foram o Gunsmoke, Time Express e Peppermint, todos com Bogô, dos Beatniks, o Peppermint incluía também Raphael d’O Seis, Suely Chagas (dos Kanticus), Susi Salum (que também cantou com Suely e Rita na adolescência), Vicente Scopacasa (que tocou comigo no British Beat)... Tive vários grupos também com a cantora e compositora Carmen Flores: Ikebana, Carmen, Ayrton & Muito Mais... Outro foi o Zimmermen, trio que só tocava Bob Dylan,a propósito do livro sobre ele do qual participei, A Estrada Revisitada, organizado por Isabel Bing... Durante três anos tive a banda Reflexo, com o jornalista Fabian Chacur... Fui baterista da banda Dumbos, liderada pelas jornalistas e tradutoras Deborah Freire e Rosa Freitag... Toquei na banda do gaitista e bluesman Fernando Naylor, “The Doctor”... Tenho a distinção de ser membro honorário de Luiz Octavio & Os Quatro Olho e Kim Kehl e Os Kurandeiros....e atualmente estou com quatro bandas: A Banda, liderada pelo tecladista Tato Fischer; a Liga Leve, de MPB e jazz, liderada pela cantora Thelma Chan; e duas onde sou o líder, o TONQ, de música e humor,e a ARBanda, a banda do Arquivo do Rock Brasileiro, projeto do qual sou o curador e o maior já realizado no Brasil sobre o assunto. No comecinho eu tocava guitarra, daí aconteceu o mesmo que com Paul McCartney, virei contrabaixista porque o cargo vagou e ninguém mais preencheu, e hoje em dia nas bandas quase sempre toco contrabaixo mesmo. Enfim, dá para fazer uma árvore como aquelas do Pete Frame, e bem frondosa.
7 = O que me diz sobre família, filhos.....
Família é a segunda melhor coisa que existe, não no sentido burguês de formalidades e obrigações como descreve a canção dos Titãs, mas no sentido de afinidade, afeto, companheirismo. E a primeira melhor coisa é ter filhos, o que eu já desconfiava e confirmei quando tive o meu, que por sinal vai fazer dez anos de idade e é um companheirão, somos bem Bobi Pai e Bobi Filho, e ele tem toda a atenção e carinho das avós, tios, tias, primos, primas, família para mim é isso.
8= fiz essa pergunta também ao Assis, nosso colega em comum : Qual a importância da cultura genuinamente brasileira para o nosso pais?
É a mesma importância do oxigênio e da água potável. A maior distinção entre os seres humanos e os animais é saber raciocinar, ler, escrever, ter noção de tempo, criar ciência e folclore. O que distingue um povo, um país é justamente sua cultura, sua identidade cultural. O Brasil é um dos países de cultura e arte mais ricas, não é patriotada, é facto, e precisa aprender a assimilar influências estrangeiras sem simples macaqueação. O Clube Caiubi é um exemplo de iniciativa no sentido de romper o círculo vicioso das gravadoras e editoras.
9 – E a juventude atual.... é mais alienada do que a nossa geração?
Acho que todas as pessoas jovens têm uma fase em que não querem saber se o governo é direita ou esquerda nem se alguém vai lançar bomba atômica, querem mais é viver a vida e aproveitar o momento, seguir menos os neurônios que os hormônios, querem namorar, matar aula, andar de carro, ir ao cinema, dançar ou tocar rock, bossa, pagode ou electro, reclamar do pai ou mãe que não entendem e ficam impondo regras. Acho que a juventude de hoje está menos obscurecida que a nossa, não há censura ou repressão como as conhecemos, está tudo mais às claras, já se sabe que quanto mais alto menos existe direita ou esquerda, como diz Sergio Dias, “o poder é a grande droga”, tanto faz ser Lula como C*ll** (desculpe meu pudor em usar baixo calão).
10 = Você coleciona as coisas ou somente tem os materiais para pesquisa?
“Colecionar as coisas” parece o dialeto nordestino, “agora eu vou coisar o coiso” (ri). Atualmente, coleciono apenas o material que tem muito valor histórico ou pessoal, como discos, livros e fotos de Raul Seixas, Ray Davies, Dorival Caymmi e outros autografados com dedicatória para mim, o resto mantenho para pesquisa e prova de descobertas e teses. E, como coleciono música e não discos, muitos vinis e 78s eu já substituí por CDs e mp3s, obviamente quanto mais definição melhor, o ideal é 320.
11 – Tem religião? Tem fé?
Sou agnóstico. Acredito piamente em energia positiva e negativa e no poder das palavras, atos e pensamentos. Sou meio como diz a canção de Gil com os Paralamas, tenho fé mas não sei em quê. Por sinal, fui católico praticante até os 20 anos, minhas primeiras aparições trocando violão e guitarra foram em missas e minha primeira vitória em festival foi como autor da melodia do cinqüentenário da diocese de Lins em 1977. Para resumir, música é meu Deus, minha religião e minha fé.
12- Chá ou café?
Ambos, conforme a hora, café de manhã – descafeinado - e chá à noite, qualquer um exceto preto.
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13- Ayrton : São Paulo tem jeito ou seremos sufocados no caos urbano....transito, barulho, poluição... sem crescimento sustentável...Como se sente com relação ao meio ambiente. “o homem é produto do meio “ já disse um filosofo – o que vai sobrar para nossos filhos e netos?
Jeito sempre tem, eu até acho que no geral está melhorando, aos poucos mas está. O simples facto de se descobrir e admitir problemas sérios como inundações e cracolândia já é um grande passo para se resolvê-los.
14 – Já escreveu para teatro?
No começo dos anos 1980 eu e o Galileu tocamos numa montagem da EAD da USP para uma peça do saudoso Paulo Yutaka, O Olho Da Rua, eu fiz as melodias, e foi bem divertido. Nos anos 1990 compus uma “ópera popular”, na linha da Ópera do Malandro e Porgy & Bess, estou burilando para ver se gravo e enceno logo. Também nos anos 1990 um pessoal me contratou para musicar uma peça que tinha tudo para fazer sucesso, figurinos de Paulo Caruso, elenco ligado ao Língua, daí a pessoa que lidava com a produção sumiu e não pagou ninguém, daí que ficou tudo na gaveta, mas desde então venho lançando as melodias em diversas formas, como “A Grande Decisão” (meu protesto contra o vandalismo que usa o futebol como desculpa), “Je T’Aime... Comme Ci Comem Ça” (minha “Je T’Aime Moi Non Plus”), “Bossa Francesa” (cuja letra pedi a Léo Nogueira, um dos letristas mais ativos do Clube Caiubi de Compositores).
15- Qual seu lema ? Cair do cavalo e continuar andando?
Esse e outros correlatos, como “Cair sete vezes e levantar-se oito” e “Viver bem é a melhor vingança”. E um dos melhores conselhos que já recebi é também o mais conciso: “Produza!”
16- E política.. você se diria o que? – Hoje está melhor no geral do que antes do Lula?
Acho que atualmente está menos pior, o povo está um pouco mais esclarecido e um pouco menos passivo, menos preguiçoso, menos esperançoso de que um paizão ou mãezona resolva tudo pro mágica sem a participação do povo, como a fábula dos bichos que não querem ajudar a fazer o bolo, mas ajudar a comer eles querem
17- Quantos livros você já escreveu? Qual vendeu mais? (Tenho certeza de que o que fala do Raul foi um deles)
Já estou na casa dos 20 livros publicados. Quanto a vendagens não tenho dados, mas certamente o sobre Raul foi um dos campeões.
18= Você critica as coisas ruins ou prefere elogiar o que é bom? Digo isso porque vários coleguinhas jornalistas perdem páginas para criticar, meter o pau – pessoalmente acho isso degradante, como uma critica de pagina inteira só metendo criticas negativas para o Oswaldo Montenegro que li uma vez
Prefiro ser positivo, enfatizando o que é bom e apontando erros ou falhas sem agressão. Cada pessoa escolhe a imagem que quer ter. Aprendi que muitas pessoas que exercem crítica musical encaram o ofício como pugilistas, cujo talento e competência são medidas pelo dano que elas infligem a outras pessoas. E não considero essas pessoas “coleguinhas”, “colegonas” ou “colegões”, embora sigam a mesma profissão que eu e eu deseje boa sorte a elas, sou amigo até de meus inimigos (ri); como se diz, o mal se paga com o bem.
19 – Quais seus projetos artísticos para o futuro? Novos livros, novas músicas virão? Algum em andamento?
Sei que meu forte é criar, compondo e escrevendo, e estou com vários livros e canções em andamento. Meu novo CD está prestes a ser lançado enquanto escrevo estas linhas, chamado Lados-E, porque, como estou moderno, quase todas as canções foram lançadas eletronicamente, em listas de discussão, blogs, redes sociais ou páginas diversas. E estou terminando um livro sobre rock brasileiro. Enfim, compus quase cem canções agora em 2011, e a intenção é produzir ainda mais em 2012.
20 – Deixamos espaço agora para você dizer o que quiser... inclusive para fazer alguma pergunta prá gente
“O que quiser”. Pronto, eu já disse. (ri.) Falei tanto aí em cima que nem tenho muito a acrescentar por ora. Quanto à pergunta, fui editor do famoso e ilustre Informativo Cultural Ventania, e pergunto: quando ele volta, inclusive virtual? Sempre temos o que dizer e haveremos de ter como dizer também. Falei bonito? Mais uma pergunta (ri). Agradeço à Ventania pelo espaço e estamos sempre aí!

NOSSA RESPOSTA : Sobre o Informativo Cultural Ventania no formato impresso possivelmente não voltará mais, mas de certa forma estaremos transformando este blog numa espécie de Informativo Cultural virtual com dicas, matérias, entrevistas, videos e imagens interessantes para o deleite de nossos amigos e clientes e  esperamos contar com o polivalente Ayrton para a realização dessas idéias com suas matérias e pesquisas.